O registro de uma família
Os Dufloth
de Württemberg e da Alsácia, pelas colônias do Mar Negro, ao Brasil
“Um povo sem conhecimento de seu passado, origem e cultura é como uma árvore sem raízes.”
— Marcus GarveyNão herdamos apenas um sobrenome; herdamos uma história.
Conhecê-la é honrar aqueles que vieram antes e deixar um legado para aqueles que virão depois.
Sumário da obra
Introdução
Este arquivo existe para registrar e contar a história da família Dufloth — uma família teuto-russa que partiu de Württemberg e da Alsácia, viveu nas colônias alemãs do Mar Negro, na Bessarábia, e atravessou o Atlântico.
A pesquisa começou em 1995 e segue viva nestas páginas. Reúne documentos, fotografias, registros paroquiais e os relatos que o Opa Pedro e a Oma Hulda deixaram.
Contexto histórico
A partir de 1804, milhares de famílias alemãs — de Württemberg, da Alsácia e de outras regiões — atenderam ao chamado do Império Russo para colonizar as estepes ao norte do Mar Negro. Buscavam terra, isenções e liberdade religiosa; deixavam para trás guerras, fome e propriedades divididas entre filhos demais.
Nossos antepassados fizeram parte dessa migração. Friedrich Dufloth casou-se em 1809 e provavelmente emigrou por essa época — não nasceu em Glückstal. As rotas desciam pela Europa central até o baixo Dniester, onde nasceriam as colônias.
As colônias
Glückstal era uma colônia alemã que, na época, pertencia à Rússia (hoje na divisa entre Moldávia, Ucrânia e Transnístria). Em torno dela formaram-se colônias-filhas e propriedades — Neudorf, Bergdorf, Kassel — e, mais ao sul, lugares ligados à nossa história como Blumental (Hîrtop), Grigoriópol e Kischinew (Chișinău).
Por gerações, a família cultivou a terra, falou um dialeto alemão e registrou nascimentos, casamentos e mortes nos livros da paróquia luterana. Foi ali — em Glückstal e arredores — que o nome Dufloth se firmou, longe da França de origem.
Os nomes e as famílias
O sobrenome tem origem francesa: a grafia correta é Duflot, sem o H. O registro mais antigo está na região do Passo de Calais, em 1672. Designa “aquele que vive num lugar chamado le Floo / le Flos” — em picardo e valão, floo é um charco, um lugar alagado. Variantes: Dufloo, Duflos, Duflo, Duflost, Duflou.
Os avós contavam que a família veio originalmente da Alsácia — região alemã na França. Ao se fixarem em terra de língua alemã, o nome ganhou o H final para acomodar a grafia; nos documentos militares ele aparece como se pronuncia em alemão: Tuflat. Repetem-se na família os nomes Christian, Christoph, Christine e Peter. Aparentados pelos casamentos vêm os nomes Hillius/Gillius (Christine Gillius, mãe de Pedro), Keller e Sailer.
A emigração
Opa Pedro nasceu em 20 de janeiro de 1900, em Hîrtop (Blumental em alemão), cidade de Cimislia, condado de Tighina (Bender) — então na Romênia, hoje na Moldávia. Era filho de Christian Dufloth e Christine Gillius. Guardamos seus documentos: a certidão de nascimento, o certificado de dispensa militar (onde o nome aparece como Tuflat) e o provável título de eleitor.
Da Romênia partiram, em 1925, Pedro e a esposa Hulda com os filhos João e Augusto, ao lado dos irmãos Cristiano, João, Cristóvão e Cristine. Foi a primeira geração Dufloth no Brasil.
Nem todos seguiram para o sul: um ramo da família firmou-se nos Estados Unidos, em South Dakota (Java, Bowdle, Tolstoy). Já em 1885 e 1888 alguns Dufloth haviam emigrado para lá; Christian Dufloth (n. 1855) partiu para Java, SD, em 1902.
A travessia
Da Bessarábia, a família desceu à Itália e ali embarcou rumo ao Novo Mundo. O navio chamava-se Sophia — e contava-se, na família, que trazia o mesmo nome da bisavó, Sophia. Foram semanas de mar entre o velho mundo e o novo: de Württemberg e da Alsácia, pelas colônias do Mar Negro, descendo a Trieste e cruzando o Atlântico, até aportarem em Santos, em 1926.
A vida no Brasil
De Santos, a família seguiu para o sul, estabelecendo-se no Rio Grande do Sul, na região de Erechim. Trocaram a estepe do Mar Negro pela mata e pela lavoura do planalto gaúcho.
Ali os filhos cresceram e nasceram os primeiros Dufloth brasileiros. A árvore que começou em Württemberg, passou por Glückstal e cruzou o oceano ganhou, enfim, novos ramos no Brasil — a descendência que mantém esta história viva.
Heranças
Junto com os documentos e as fotografias, a família trouxe hábitos e sabores das colônias do Mar Negro — receitas que atravessaram o oceano nas malas e seguiram à mesa brasileira. Pratos de conforto, de festa e de domingo, ainda preparados pelos descendentes.
Abaixo, três que abrem o caderno: Strudla, Knepfla e Kuchen.
Strudla
Os pãezinhos cozidos no vapor, sobre carne e batata.
Ingredientes
- massa de pão simples
- batatas
- carne (porco ou galinha)
- cebola e banha
- creme de leite
Modo de preparo
- Refogue a carne e as batatas com cebola.
- Arrume os rolinhos de massa por cima.
- Tampe e cozinhe no vapor até crescerem.
Knepfla
A sopa cremosa de bolinhos de massa.
Ingredientes
- farinha, ovo e leite
- batatas em cubos
- cebola e manteiga
- creme de leite
- sal e pimenta
Modo de preparo
- Faça a massa e corte os bolinhos.
- Cozinhe com a batata e a cebola.
- Finalize com creme de leite.
Kuchen
A torta-bolo de creme das colônias alemãs.
Ingredientes
- massa de fermento
- creme de ovos e leite
- açúcar e canela
- frutas da estação
Modo de preparo
- Abra a massa na forma.
- Cubra com o creme e as frutas.
- Asse até o creme firmar.